Deputada do PT precisa de 39 votos em plenário dominado por aliados do governador, justamente após cobrar auditoria sobre os gastos do estado com as chuvas

A deputada Leninha (PT) está mais perto do que nunca de fazer história na política mineira. Após o deputado Tadeu Martins Leite (MDB) ser eleito por unanimidade, com 69 votos favoráveis e nenhum contrário, para a vaga de conselheiro do TCE-MG na última quarta-feira (4/3), a atual 1ª vice-presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) está a um passo de se tornar a primeira mulher a comandar efetivamente o Legislativo do estado em décadas. Agora, falta apenas a nomeação formal pelo governador e a publicação no Diário Oficial para que Tadeu Leite deixe o mandato, e Leninha assuma a presidência.

Mas entre a cadeira interina e a presidência definitiva, há um obstáculo político considerável: ela precisa de 39 votos entre os 77 deputados — em um plenário onde a maioria responde ao governador Romeu Zema. E o momento não poderia ser mais delicado.

A conta que não fecha, por enquanto

Pelo Regimento Interno da ALMG, com a renúncia de Tadeu Leite ao mandato para tomar posse no TCE, Leninha ocupa a presidência de forma imediata e interina. No entanto, como a vacância ocorre antes de 30 de novembro do segundo ano do mandato, a Casa precisa convocar novas eleições internas para definir quem presidirá o Legislativo até o fim da legislatura, em janeiro de 2027.

É aí que o cenário se complica. A base governista do governador Romeu Zema detém ampla maioria na Assembleia, e Leninha não faz parte desse arco de alianças. Para se consolidar na cadeira, a deputada terá que construir pontes com parlamentares que, em tese, estão do outro lado da mesa.

Auditoria sobre chuvas acirra o embate com o governo

O desafio político ganhou um novo capítulo na última quinta-feira (5/3), quando Leninha protocolou junto ao TCE-MG um pedido formal de auditoria para investigar possíveis bloqueios ou uso indevido de recursos destinados à prevenção e ao enfrentamento das chuvas em Minas Gerais.

A medida foi motivada pelo agravamento do cenário climático no estado. Cidades como Juiz de Fora e Ubá sofreram com temporais severos, e a Barragem das Lages, em Porteirinha, transbordou no último domingo (1º/3). A parlamentar citou dados oficiais que apontam uma queda de 96% nos investimentos estaduais para prevenção de desastres climáticos entre 2023 e 2025.

Leninha foi além e solicitou que o TCE apure eventual responsabilidade direta do governador Romeu Zema diante da recorrência dos eventos extremos.

O governo de Minas contestou os números, afirmando que os investimentos em prevenção aumentaram 170% na média anual em relação ao último ano da gestão anterior e que os dados utilizados pela deputada seriam resultado de um cálculo equivocado, influenciado por reclassificações contábeis ao longo do tempo.

Independentemente de quem esteja certo nos números, o fato político é claro: ao mirar diretamente no governador, Leninha eleva o tom do embate com o Palácio Tiradentes em um momento em que precisaria, justamente, de apoio de parlamentares alinhados a Zema.

Quem é Leninha

Marilene Alves de Souza, a Leninha, é natural de Montes Claros e fez do Norte de Minas a sua base política. Bióloga de formação e mestre em Desenvolvimento Social pela Unimontes, sua trajetória começou no sindicalismo, com passagens pelo Sind-UTE e pela CUT, e desembocou em uma carreira parlamentar focada em educação, direitos das mulheres e desenvolvimento regional.

Na ALMG, já havia feito história ao se tornar a primeira mulher a integrar a Mesa Diretora desde os anos 1990. Em 2025, assumiu a presidência do PT em Minas Gerais, o que lhe confere peso tanto institucional quanto partidário na articulação com a base de Lula no estado.

Coragem ou risco calculado?

A pergunta que se impõe é se Leninha está disposta a suavizar o discurso para angariar os votos necessários, ou se aposta que a pauta da fiscalização e o peso simbólico de ser a primeira mulher a presidir a ALMG serão suficientes para atrair apoio para além das fronteiras partidárias.

O fato é que, para muitos deputados, votar em Leninha seria também um gesto histórico. E na política mineira, onde tradição e pragmatismo costumam andar juntos, essa narrativa pode ter mais força do que os cálculos de bancada sugerem.

Com informações da ALMG e do jornal O Tempo

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Sobre a autora

Carlos Barbosa

Jornalista Diretor Geral do Jornal Luz Metropolitana desde 2016, com trajetória em diversos veículos de comunicação de 2002. "Se abrirão grandes alamedas, por onde passará o homem livre." Salvador Allende

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